{"id":4362,"date":"2020-05-05T11:20:35","date_gmt":"2020-05-05T14:20:35","guid":{"rendered":"http:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/2020\/05\/05\/tributos-relativizaveis\/"},"modified":"2021-05-25T19:55:35","modified_gmt":"2021-05-25T22:55:35","slug":"tributos-relativizaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/2020\/05\/05\/tributos-relativizaveis\/","title":{"rendered":"Tributos Relativiz\u00e1veis?"},"content":{"rendered":"<p>Nunca calhou t\u00e3o bem a antiga e conhecida frase do escritor ingl\u00eas Samuel Johnson: S\u00f3 h\u00e1 duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. \u00c9 essa a sensa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo com a Pandemia do Covid-19 e as medidas fiscais at\u00e9 meados de abril editadas.<\/p>\n<p>Fr\u00e9d\u00e9ric Bastiat na sua obra escrita em 1801 A LEI, (A LEI, LVM EDITORA, SP: S\u00e3o Paulo) sabiamente j\u00e1 afirmava que:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 240px;\">\u201cquando a Lei e a Moral est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o, o cidad\u00e3o se encontra na cruel alternativa de ou perder a no\u00e7\u00e3o de Moral, ou perder o respeito pela Lei (&#8230;) Lei e Justi\u00e7a s\u00e3o a mesma coisa. Temos todos uma forte disposi\u00e7\u00e3o a considerar leg\u00edtimo aquilo que \u00e9 legal, a tal ponto que h\u00e1 muitos que falsamente deduzem da Lei toda a Justi\u00e7a. Basta, portanto, que Lei ordene e consagre a Espolia\u00e7\u00e3o para que a Espolia\u00e7\u00e3o pare\u00e7a justa e sagrada para muitas consci\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Bastiat acreditava, portanto, que a espolia\u00e7\u00e3o legalizada tem muitos nomes, e alguns deles s\u00e3o: tarifa e imposto progressivo.<\/p>\n<p>Estabelece o art. 3\u00ba, do C\u00f3digo Tribut\u00e1rio Nacional: \u201cTributo \u00e9 toda presta\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria compuls\u00f3ria, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que n\u00e3o constitua san\u00e7\u00e3o de ato il\u00edcito, institu\u00edda em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada\u201d.<\/p>\n<p>Isso significa resumidamente que \u00e9 um pagamento, em moeda, for\u00e7ado dos cidad\u00e3os, n\u00e3o por terem praticado nada il\u00edcito, mas por estar previsto em lei e cobrada pelo ente p\u00fablico como uma obriga\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse montante arrecadado tem como finalidade a aplica\u00e7\u00e3o da lei para manter a ordem p\u00fablica, prote\u00e7\u00e3o \u00e0 propriedade privada, investimento em servi\u00e7os p\u00fablicos, infra-estrutura , manuten\u00e7\u00e3o e pagamento dos gastos do pr\u00f3prio governo, assim como gastos com sistemas de seguridade, educa\u00e7\u00e3o e etc.<\/p>\n<p>Mais de dois s\u00e9culos se passaram desde tal ideia e continuamos vivendo a espolia\u00e7\u00e3o legalizada, visto que se transformada em lei, recebeu o manto de justi\u00e7a e todos aceitam como moralmente justa.<\/p>\n<p>Flavio Tartuce enfrentou muito bem o tema no \u00e2mbito privado quando concluiu<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> que inclusive a mora n\u00e3o deve ser cobrada pelos ditames da boa f\u00e9 objetiva, quando o inadimplemento pontual se der por dificuldades causadas pela pandemia. Ou seja, mesmo que n\u00e3o previsto em contrato, por causa da crise instalada se aceitar\u00e1 o atraso no pagamento de presta\u00e7\u00f5es contratadas sem o pagamento de encargos que normalmente caberia por causa das dificuldades trazidas pela COVID-19.<\/p>\n<p>E no \u00e2mbito p\u00fablico? O pacote econ\u00f4mico anunciado pelo Ministro Paulo Guedes teve como objetivo beneficiar os mais impactados com posterga\u00e7\u00e3o de impostos, facilita\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos e etc. Decretos, MPs, Portarias est\u00e3o sendo editadas\/publicadas em \u00e2mbito federal, estadual e municipal para benef\u00edcio dos contribuintes.<\/p>\n<p>Mas e quando a conta chegar? Algo t\u00e3o certo como o pagamento de impostos diante deste estado de calamidade decretado foi postergado. Mas, continua existindo a obriga\u00e7\u00e3o do pagamento? Sim. Ela pode ser questionada?<\/p>\n<p>O Estado prov\u00ea para os cidad\u00e3os e estes para o Estado, sendo uma troca de direitos e obriga\u00e7\u00f5es, mas neste jogo n\u00e3o se tem autonomia de vontade quando o assunto \u00e9 pagamento de impostos, uma vez que ele \u00e9 compuls\u00f3rio, conforme estabelece o j\u00e1 mencionado artigo 3\u00ba do CTN.<\/p>\n<p>A teoria dos jogos, sistematizada pelo matem\u00e1tico John Von Neumann Nash e pelo economista Oskar Mongenstern em 1944 \u00e9 aplicada para se entender e explicar tecnicamente consequ\u00eancias e momentos em que as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas, levando em considera\u00e7\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas interdependentes.<\/p>\n<p>Foi entendido atrav\u00e9s dos estudos da matem\u00e1tica que as atitudes e rela\u00e7\u00f5es de coopera\u00e7\u00e3o dentro de um grupo refletem no resultado de todos. A conclus\u00e3o chegada pelo matem\u00e1tico \u00e9, em simples palavras, a comprova\u00e7\u00e3o em termos matem\u00e1ticos e l\u00f3gicos de que nos grupos em que h\u00e1 a coopera\u00e7\u00e3o h\u00e1 resultados melhores do que em grupos em que h\u00e1 a trai\u00e7\u00e3o de um dos membros por escolhas ego\u00edsticas onde se pensa apenas na sua vantagem, comprovando que para o conceito de certo e errado existe um c\u00e1lculo matem\u00e1tico que n\u00e3o \u00e9 consciente. A conclus\u00e3o, chamada de equil\u00edbrio de Nash foi a de que em um jogo com mais de dois jogadores se um deles age unilateralmente n\u00e3o h\u00e1 um ganho para todos.<\/p>\n<p>Economia e tributa\u00e7\u00e3o est\u00e3o internamente ligadas, uma influencia diretamente na outra e ambas impactam no crescimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entendo que para esse jogo dar certo o governo ter\u00e1 que pensar em algum tipo de isen\u00e7\u00e3o de tributos. Coaduno com a ideia que a isen\u00e7\u00e3o deva ser vista com muita cautela e deva ser dada de uma forma bem espec\u00edfica e sem conceder privil\u00e9gios. Acredito que os tributos que advenham de renda, servi\u00e7o ou consumo n\u00e3o devam ser relativizados, tendo em vista que se a pessoa teve a oportunidade de auferir aquela renda ou de prestar aquele servi\u00e7o porque garantir a ela a isen\u00e7\u00e3o? Isso n\u00e3o ocorre com aqueles relacionados \u00e0 propriedade, \u00e0s taxas e \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es. Por que o Estado n\u00e3o pode perder sua receita e os empres\u00e1rios e empregados sim?<\/p>\n<p>O Estado n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um ente capaz de se sustentar e ter lucro? Se n\u00e3o \u00e9 deveria ser. Cortar gastos (como privatiza\u00e7\u00f5es, funcionalismo enxuto dentre outras medidas) e aceitar menos receitas. Por que o particular pode negociar e o Estado n\u00e3o? Quem lhe d\u00e1 a imutabilidade de intoc\u00e1vel em um pedestal? Est\u00e1 se perdendo a no\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio e aceitando como uma das caracter\u00edsticas que conceituam o fascismo criado por Benedito Mussolini com suas conhecidas palavras ao definir que assim conceituava \u201c&#8221;Tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato&#8221;, ou seja, &#8220;Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado&#8221;. Uma ditadura sangrenta parece estar acontecendo sem que percebermos a gravidade disso.<\/p>\n<p>A tributa\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 uma espolia\u00e7\u00e3o legalizada. Desta forma, se cada um pensar s\u00f3 em si o resultado para todos n\u00f3s poder\u00e1 ser desastroso, assim como previu Nash.<\/p>\n<p>No conceito filos\u00f3fico de Arist\u00f3teles de pol\u00edtica a moral est\u00e1 em sua forma\u00e7\u00e3o, a moral n\u00e3o era entendida como algo separado j\u00e1 que o indiv\u00edduo tendo como base a \u00e9tica e tomando decis\u00f5es sempre para o bem coletivo teria dentro da pol\u00edtica e, intr\u00ednseca a ela, a moral. Ser\u00e1 que \u00e9 t\u00e3o imposs\u00edvel pensarmos que poderia acontecer isso na pr\u00e1tica da pol\u00edtica atual? E ent\u00e3o aceitarmos a relativiza\u00e7\u00e3o do tributo como algo justo e por isso aceito simplesmente por ser o certo a fazer.<\/p>\n<p>Isso porque o cen\u00e1rio mudou. Estamos vivendo uma Pandemia Mundial, portanto \u00e9 hora de envolvimento de todos. Se o Governo se esfor\u00e7ar para fazer o poss\u00edvel para equilibrar a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, se os pol\u00edticos decidirem neste sentido, se os empres\u00e1rios, aut\u00f4nomos e empregados se utilizarem das medidas com responsabilidade e integridade, passaremos por essa crise mais saud\u00e1veis, sabendo a necessidade de cada um pensar em todo o grupo, como na Teoria dos Jogos, o resultado certamente ser\u00e1 mais ben\u00e9fico a todos.<\/p>\n<p>Assim como se discute a relativiza\u00e7\u00e3o da coisa julgada material (dita como imut\u00e1vel para muitos no direito) aqui se pergunta: o que deve prosperar: a lei que obriga pagar o imposto (que deveria ser justa, mas neste caso n\u00e3o \u00e9, pois, legaliza a espolia\u00e7\u00e3o) ou sua relativiza\u00e7\u00e3o visto \u00e0 pandemia e ao caos instalado? Se n\u00e3o houver uma decis\u00e3o do governo ( assim como o apoio pelo congresso) neste sentido em \u00e2mbito geral certamente caber\u00e1 discuss\u00e3o em \u00e2mbito particular para cada contribuinte. Que a melhor sa\u00edda para todos seja escolhida.<\/p>\n<hr>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <a href=\"https:\/\/flaviotartuce.jusbrasil.com.br\/artigos\/823561131\/encargos-moratorios-coronavirus-e-a-boa-fe-objetiva#_ftn6\">Acessado em 15 de abril de 2020<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca calhou t\u00e3o bem a antiga e conhecida frase do escritor ingl\u00eas Samuel Johnson: S\u00f3 h\u00e1 duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. \u00c9 essa a sensa\u00e7\u00e3o que estamos vivendo com a Pandemia do Covid-19 e as medidas fiscais at\u00e9 meados de abril editadas. Fr\u00e9d\u00e9ric Bastiat na sua obra escrita em 1801 &hellip;<\/p>\n<p class=\"read-more\"> <a class=\"\" href=\"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/2020\/05\/05\/tributos-relativizaveis\/\"> <span class=\"screen-reader-text\">Tributos Relativiz\u00e1veis?<\/span> Leia mais &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5280,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-4362","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-direito-tributario"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4362","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4362"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4885,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4362\/revisions\/4885"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5280"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/camargoecamargoadvocacia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}